quarta-feira, 20 de junho de 2012

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

LIVRO EM QUE GILBERTO GIL ANALISA SUAS CANÇÕES: TODAS AS LETRAS

TEXTO INDICADO PELO PROF. ANDRÉ PARA LEITURA: O MEU PORTUGUÊS RUIM

Caetano Veloso - O meu português ruim    'O GLOBO" 04/10/2010


É inacreditável que Barbara Heliodora tenha escrito que um autor teatral não pode usar o tratamento na segunda pessoa. E muito significativo que ela tenha lançado esse anátema como condição para que uma peça se considere brasileira. É a mesma mentalidade que leva um tradutor de Proust a evitar a palavra “raparigas” e tradutores de textos complexos a correrem da tmese como o diabo da cruz. Até parece que estilos nascidos desse tipo de pânico primam pela clareza e pela elegância.



Mas não. Leem-se textos onde o único mérito parece ser o do esforço para evitar mesóclises e segundas pessoas. Erros variados e escorregadelas para a pedanteria não são sequer notados por muitos dos que se contorcem nesses dribles. Outro dia, por causa de meus protestos contra o medo da mesóclise, recebi alguns e-mails corrigindo minha suposição de que talvez algo do problema se devesse às campanhas dos sociolinguistas. Dei razão aos que me corrigiram. Mas a verdade é que esse à vontade com que Barbara Heliodora proíbe o uso do tratamento em segunda pessoa não pode deixar de se dever, em parte, a tal campanha. É difícil que simplesmente coincida com ela.

Quando eu mantinha um blog para acompanhar a feitura do projeto “Zii e Zie”, disco e show, escrevi, em tom ainda mais apressado e irresponsável do que o faço aqui, sobre as perguntas que me fiz ao ler um bom livro sobre tendências do português brasileiro.



Como a descrição da frequência do uso do “você” levava a autora a expor os pronomes pessoais sujeitos como sendo “eu, você, ele, ela, nós, vocês, eles, elas”, em vez de “eu, tu, eles, nós, vós, eles”, fiquei com a impressão de que se sugeria que passássemos a ensinar nas escolas esses pronomes mais usuais — e as variações verbais que os acompanham — e abandonássemos o “tu” e o “vós”, que não usamos na conversa.



Descrevi o mal-estar que isso me provocava e enumerei as várias formas conversacionais em que a segunda pessoa do singular é usada comumente.



Do “tás me estranhando” carioca ao “viste” (ou “visse”) pernambucano; do “tu é mesmo mané”, também do Rio, ao “tu fala demais” dos gaúchos. Lembrei que em Belém do Pará se flexiona o verbo para a segunda pessoa com considerável frequência.

E mencionei o fato de que as crianças entendem perfeitamente bem o que quer dizer um samba-canção ou um rock-balada em que o cantor se dirige à amada na segunda pessoa. Isso sem falar nos textos eruditos.



Por causa da reação de alguns comentaristas do blog, fui ler os sociolinguistas militantes — esses que odeiam os professores que ensinam regras de português em jornais ou na TV. Percebi que há uma confusão entre observar como a língua muda e querer desfazer toda a normatividade já consagrada. A explicação era sempre que a norma culta é uma espécie de ideologia da classe dominante que oprime os desassistidos.

Nunca passava pela cabeça desses heróis que essa norma tinha se desenvolvido pelo mesmo processo para o qual eles querem chamar a atenção no presente. O povo é o inventa-línguas. A contribuição milionária de todos os erros. Sim. Mas desde sempre. Por que desqualificar a contribuição de milhões de falantes do português que, através dos séculos, nos trouxeram até onde a língua se encontra agora? Então a ideia é que só valerão as regras que se criarem a partir do surgimento de uma sociedade justa e sem classes? Quando é mesmo que vai ser isso? É simplesmente ruim desistir de adestrar nosso povo para o entendimento da nossa língua em todos os seus registros. O português lusitano e o africano, o do sertanejo iletrado e o do doutor em sociologia, o do poeta renascentista e o do teatrólogo moderno, o do cientista e o do sacerdote.



Eu próprio não me sinto seguro ao escrever. Cometo erros de ortografia. (Numa resposta a Xexéo — cujo nome já está quase passando o de Liv Sovik em frequência aqui nesta coluna — na época do réveillon em que, no “JB”, eles criaram uma maluquice envolvendo Paulinho da Viola, escrevi “analizar” — ou algo equivalente.

Sem memória visual de como era a palavra, segui ( s e m p e n s a r ) uma regra abstrata (isso acontece menos em inglês ou em francês, mas não vou explicar agora por quê). Xexéo, mais uma vez, zombou de mim. Bem feito. E muitas vezes me vejo enrolado na construção de uma frase.



Mas amava meu professor de português do Ginásio Teodoro Sampaio, Nestor Oliveira (poeta de olhos azuis e voz bonita) e Dona Candolina (preta gorda competentíssima e energética), do Severino Vieira. E gosto de literatura e de que o acaso tenha feito com que falemos português.



Em Londres, quando chegou o disco de Roberto Carlos que tinha “Detalhes”, ouvi a canção com respeito e frieza.



Mas quando veio o verso “E até os erros do meu português ruim” eu caí no pranto.



Alguém dirá que tenho chorado demais aqui — e sempre por causa de música.

Mas é assim. Não quero entrar no mérito da crítica de Barbara Heliodora aos arranjos que Jaques Morelenbaum e Jaime Alem fizeram para as música de Tom: não vi o “Orfeu” no Canecão (estou em São Paulo), de modo que não sei se a shakespeariana crítica sentou-se perto de algum alto-falante rachado.



Nem quero pensar nisso para não chorar de novo.



Mas o “tu” dos versos e das canções não pode ser anatemizado por um preconceito mais idiota e opressivo do que o que pareceu ser o meu quando disse, numa entrevista até bem razoável, que Lula é analfabeto.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Café com letras: relançamento do livro Pedro Pedra , de Gustavo Bernardo


mesa: Gustavo Bernardo, Roger Mello, Denise Brasil, Ricardo Benevides e MariaTeresa Gonçalves


data e horário: dia 20 de maio (quinta-feira)

18 horas

LOCAL: Salão II (lounge da COARTE, junto ao Teatro Noel Rosa)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ano Novo, novo semestre, nova disciplina com a Prof. Maria Teresa: ESTILÍSTICA

09/03:
Apresentação e bibliografia

16/03: Aytel
a) O fato estilístico p.13 / 21
b) As transferências de sentido ou tropos p. 64/65
O estilo e suas técnicas, Edições 70
a) O pirata Jacob Cow ( serão as palavras signos?) P. 83/91
Alice no país da Linguagem, Marina Yaguello, Editorial Stampa




23/03: Raul
a) Cap. 4: problemas e sínteses p. 203/225
b) Cap. 5: Conclusão p. 227/231
Estilística, poética e semiótica literária, Alícia Yllera, Almedina





30/03: Simone Vasconcelos
a) A criança e o estilo p. 22/69
O infantil na literatura: uma questão de estilo, Ana Maria Clark Peres, Miguilin



06/04: Simone Lopes
a) O problema central do estilo p. 83/104
O problema do estilo, J. Middleton, Murry, Acadêmica



13/04:
a) Problemas p. 133/160
A estilística. Pierre Guiraud, Mestre Jou



20/04: Irna
a) A metáfora p. 29/49
Esse ofício do verso, Jorge Luiz Borges, Cia. Das Letras



27/04: Leila
a) a cultura como jogo intertextual p. 12/19
c) A intertextualidade na produção literária p. 20/46
d) Intertextualidade na recepção p. 54/58
Intertextualidade: teoria e prática, Graça Paulino e outras, Lê.





04/05: Terezinha
a) A função poética p. 161/181
Estrutura da Linguagem Poética, Jean Cohen, Cultrix




11/05: Lourdes
a) Um enfoque do estudo do estilo p. 75/93
Linguística e estilo; Nils, Erick,Enkvist e outros, Cultrix



18/05: Rosi
a) A frase e suas modalidades p. 121/139
b) Generalidades ( pertinentes sobre sintaxe) p. 141/144
Ensaio de estilística de língua portuguesa, Gladstone C. de Melo, Padrão.




25/05: Carmem
a) A reforma estilística de Eça: a sua novidade e a sua necessidade p. 61/65
b) O adjetivo p. 137/183
Língua e estilo de Eça de Queiroz, Ernesto Guerra da Cal, Almedina



01/06: Eliane
a) O estilo na lingüística p. 249/274
Discurso, estilo e subjetividade, Sírio Possenti, Martins Fontes.



08/06: Rita
a) Palavras invariáveis p. 254/284
Estilística da Língua portuguesa, Manuel Rodrigues Lapa, Coimbra editora.




15/06:
a) Ellection Y expressividad em El estilo p. 158/182
Linguage y estilo, Stephen Ullmman, Aguilar


22/06: Bruno
a) Alguns Problemas do significado 144/160
b) As virtudes ( e vícios do estilo) p. 161/172
A estilística, José Lemos Monteiro, Ática.



29/06
O prazer do texto, Roland Barthes, edições 70.
Breve manual de estilo e romance, Autran Dourado, UFMG


Resenha 04/05 : Contribuição a estilística Portuguesa, Matoso Câmara Junior, Ao livro técnico.



Livro básico: Introdução a Estilística, Nilse Santana Martins

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

VÍDEO ENCERRAMENTO AULAS SOBRE LEITURA EM DEZEMBRO DE 2009

video


Uma amostra de nossa lembrança para a mestra Maria Teresa. O arquivo completo está no PEN DRIVE que entregarei ainda este mês.

domingo, 15 de novembro de 2009

A PALAVRA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA
DISICPLINA: TEORIA E PRÁTICA DE LEITURA
PROFESSORA: MARIA TERESA CONÇALVES PEREIRA
ALUNA (ouvinte): HELENA MESQUITA DIAS MARQUES



Os baobás muito velhos, assim como as histórias
na mente de um contador, não morrem nunca.
(ditado africano)


De onde vêm as histórias?
De onde e desde quando, vem este desejo do homem de contar e ouvir histórias?
Quem se encarrega em não deixá-las morrer?

PRIMEIROS CONTADORES PROFISSIONAIS:
Na Europa Central: bardos (cronistas – recitavam genealogias, acompanhados de instrumentos musicais e cantadores de louvores, que cantavam os feitos de seus líderes).
Na África: os griots ou akpalôs (contavam histórias das tribos) e os arokins (eram encarregados de relatar fatos heróicos).
LENDA AFRICANA: Kwaku Ananse (a aranha ou o Homem Aranha) - desejava possuir as histórias de Nyankonpon (o deus do céu, o todo-poderoso) para dá-las a seu povo.
LENDA ÁRABE: Sherazade - usa seu dom de contadora para salvar a própria pele.

Mas será que só pode ser considerada uma história, aquilo que lemos em um livro ou ouvimos de um contador oficial? Será que a novela das oito não reproduz o comportamento de Sherazade, que vai aos poucos enredando, enfeitiçando dia após dia?

A linhagem dos contadores vem sendo acrescida através dos séculos até os nossos dias, passando pelos menestréis, trovadores, cordelistas, locutores de rádio e televisão, pastores, padres, apresentadores de programas de auditório, sempre encontrando quem os escutasse.

MATOS, Gislayne Avelar. A Palavra do Contador de Histórias.São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.203.

RESUMO
Neste livro, a autora, Gislayne A. Matos, revela-nos o surpreendente fenômeno atual do ressurgimento dos contadores de histórias e a dimensão educativa da palavra do contador de histórias na contemporaneidade.
Num mundo grafocêntrico em que vivemos, causa, no mínimo, estranheza o retorno da narrativa oral e a volta da figura do contador, peculiar a culturas anteriores à escrita ou restrita a grupos rurais.
A autora busca em obras de antropólogos, historiadores, psicanalistas e estudiosos das tradições orais os pressupostos teóricos da narrativa oral e seus contadores, tecendo com maestria as teorias e os dados empíricos.

• POR QUE O SEU INTERESSE PELOS CONTADORES DE HISTÓRIAS? – Gislayne é herdeira de seu avô na arte de contar histórias. Mestra em educação, terapeuta sistêmica e especialista em arte-terapia e arte-educação, coordena o projeto Convivendo com Arte, para a formação de novos contadores e a pesquisa de contos da tradição oral e suas diversas funções. É co-autora, com a africana Inno Sorsy, do livro O ofício do contador de histórias.

• A PALAVRA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS
Interlocução: Amadou Hampâté Bâ _ “filho legítimo da tradição oral, um diplomado da Grande Universidade da Palavra ensinada à sombra dos baobás” é eleito o principal interlocutor na apresentação da pesquisa de Gislayne A. Matos.

• Para definir a imagem do contador de histórias, Gislayne apóia-se nos ensaios “O narrador” e “Experiências e Pobreza”, de Walter Benjamin.

• O repertório – O Conto de Fadas.
 Walter Benjamin - “O conto de fadas dá-nos notícia dos ritos mais antigos que a humanidade instituiu para espantar o pesadelo que o mito depositara no seu peito. Mostra-nos, na figura do bobo, como a humanidade se faz de boba diante do mito; mostra-nos na figura do irmão mais moço como aumentam suas chances com a distância em relação ao tempo mítico primitivo; mostra-nos na figura daquele que parte aprender o temor que as coisas de que temos medo são transparentes; mostra-nos na figura do inteligente que as perguntas que o mito faz são simplórias, a pergunta da esfinge; mostra-nos na figura dos animais a criança do conto de fadas, que a natureza não está obrigada apenas em relação ao mito, mas prefere reunir-se em torno do homem. O mais aconselhável _ assim o conto de fadas ensinou há tempos, à humanidade, e ainda hoje ensina às crianças _ é enfrentar os poderes do mundo mítico com astúcia e superioridade”. (p.XXVI 3&)

 Amadou Hampâté Bâ - “Os mitos, contos, lendas (...) frequentemente constituem para os sábios dos tempos antigos um meio de transmitir, ao longo dos séculos, de uma maneira mais ou menos velada, pela linguagem de imagens, os conhecimentos que, recebidos desde a infância, ficarão gravados na memória profunda do indivíduo, para ressurgirem, talvez, no momento apropriado e iluminado por um novo sentido (...). Eles são a mensagem de ontem, destinada ao amanhã, transmitidas no hoje.” (4& p. XXVI a XXVII).


• A DIMENSÃO EDUCATIVA DA PALAVRA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS NA CONTEMPORANEIDADE

 Walter Ong (sacerdote jesuíta - historiador e filósofo) “[...] o homem contemporâneo, sobretudo o urbano, dá sinais de necessitar de um relato não-mediado, em que a presença do outro ao ‘alcance das mãos’, um outro que ‘se dirija a mim, que me olhe, me emocione’, torna-se essencial”. “O sentimento de unidade que o contador é capaz de propiciar, por meio de sua palavra, talvez esteja funcionando como uma das saídas possíveis desse túnel de individualismo, de isolamento, de indiferença pelo outro e de intolerância com a alteridade próprios da contemporaneidade, que parece minar o reconhecimento do que há de humano numa ‘comunidade’ de humanos: já não nos reconhecemos e entretanto...somos tão semelhantes.” (1º / 2º & p. XXXII)

 Áreas de estudo: na Literatura (importante coleta de contos); antropologia e etnologia (interesse pelos aspectos ligados às culturas orais, nas quais os contos têm função de coesão social); psicologia (busca as possibilidades terapêuticas dos contos). Nas áreas das ciências sociais e da educação, o tema ainda é pouco explorado.


CAPÍTULO I – A PALAVRA POÉTICA DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS.
O capítulo trata da “palavra” do contador de histórias.
“Os contadores de histórias são guardiões de tesouros feitos de palavras, que ensinam a compreender o mundo e a si mesmos. Eles semeiam sonhos e esperanças. São carinhosamente chamados de ‘gente das maravilhas’ pelos árabes”. (1º& p. 1)

Quanto à linguagem: O texto é articulado por uma polifonia de vozes; contudo, dois teóricos (antropologistas religiosos) Ernest Cassirer e Mircea Eliade e o tradicionalista Amadou Hampâté Bâ representam o tripé do capítulo.

O mito
A antropologia religiosa, segundo Fernando Schwarz, postula que o mito é uma expressão existencial do homem, cujo pensamento simbólico torna possível sua livre circulação por todos os níveis do real. O mito faz com que o homem “não se sinta mais fragmento impermeável, mas um cosmo vivo reunido a todos os outros cosmos vivos que o rodeiam”.
• Para Cassirer, o homem não é mais considerado simplesmente um ser físico e emocional. Graças à sua imaginação, ele é capaz de criar símbolos, que são “pontes” entre o céu e a terra. Ele é reconhecido como homo simbolicus.
• Já Mircea Eliade cunha o conceito de homo religiosus: aquele que pode reconhecer em si mesmo a irrupção de uma visão transcendente e globalizante. Seus estudos colocam em evidência os invariantes do homem, a saber: o Sagrado, os Mitos e os Símbolos, estabelecendo vínculos de compreensão entre os homens de culturas e de épocas diferentes.

• POR QUE A VOLTA DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS?
“Se há épocas em que os ouvidos e os corações se fecham para o mágico e o poético, outras, entretanto, encontram o home pronto a se encantar novamente. Talvez estejamos vivendo mais uma dessas épocas, o que explicaria o retorno dessa ‘gente das maravilhas’”. (p. 1/ 2)

• QUANDO SE DEU? – na década de 70. Em fevereiro de 1989, colóquio internacional no Musée National dês Arts et Traditions Populaires, de Paris. (350 participantes representaram catorze países).
No Brasil (1992), Primeiro Festival de Contadores de Histórias realizou-se em Belo Horizonte.

As ideias que os contadores de histórias fazem de sua “palavra”.
Em confronto com ideias de teóricos ou tradicionalistas a “palavra” passa a ser observada a partir de três ângulos
a) Sua natureza: descende da Palavra (sentido divino).
b) Sua especificidade como texto (sentido bakitiniano do termo – produção humana).
c) A palavra que cria: poética dos contadores de histórias – performance própria da poética oral. (cap.II)


O PRIMEIRO ÂNGULO: A PALAVRA REVELADA. (mítica, sagrada). (p. 5 – 16)
“Em sua grande maioria, os contadores de histórias, ao definirem a palavra dos contos, ressaltam nela uma natureza espiritual, sagrada, carregada de poder (...)” (p. 7)

NA BÍBLIA:
(Mateus 8:6-13) Jesus viu a fé nas palavras do centurião e apenas concordou com elas. Há poder na palavra e nós precisamos aprender a usá-la para curar e libertar as pessoas.

NA LITERATURA:
(Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV) – Bobo: Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender.
Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo; portanto, seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.
NA PSICANÁLISE:
Clarissa P. ESTÉS: “Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem. Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica para trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso(...)”(Posfácio p. 567)

A natureza da Palavra (p. 6 – 14)
• Ernest Cassirer (Linguagem e mito): “ Nos relatos da criação de quase todas as grandes religiões culturais, a Palavra aparece sempre unida ao mais alto Deus Criador, quer se apresente como instrumento utilizado por ele, quer diretamente como fundamento primário de onde ele próprio provém, assim como toda existência e toda ordem de existência. O pensamento e sua expressão verbal costumam ser aí concebidos como uma só coisa, pois o coração que pensa e a língua que fala se pertencem necessariamente.” (p. 7)

• Amadou Hampâté Bâ: “Além da função da memória, que é mais desenvolvida, o importante nas sociedades orais é a força que tem a palavra e o laço que a une ao homem. Onde não há escrita, o homem está ligado à sua palavra, e sua palavra testemunha quem ele é.” (p. 9)
Nas sociedades de tradição oral, “um conto é a mensagem de ontem, destinada ao amanhã, transmitida no hoje.”(p.13)

Os cuidados com a “palavra” (p.14 - 16)
“A palavra dos contos tem se mantido viva, pois a sua estrutura ou o esqueleto da história como um núcleo cujo conteúdo arcaico e arquetípico é intocável e deve ser resguardado”.

• Roberto Carlos Ramos (p.16) “A história em si, ela tem uma força. Algumas histórias existem há trezentos, quatrocentos anos, porque têm uma força que as mantém vivas. Elas não precisam de nenhuma tecnologia para serem passadas. Mantiveram-se vivas por trezentos, quatrocentos anos, pela força das pessoas e das verdades que elas encerram. A história, por si só, é viva.”

• Clarissa Pinkola Estés: “Antigos anatomistas falavam de o nervo auditivo dividi-se em três ou mais caminhos nas profundezas do cérebro. Eles concluíram que o ouvido devia, portanto , funcionar em três níveis diferentes. Um deles seria o das conversas rotineiras da vida. Um segundo seria dedicado à aprendizagem e à arte. E o terceiro existiria para que a própria alma pudesse ouvir orientações e adquirir conhecimentos enquanto estivesse aqui na terra. Ouçam, portanto, com a escuta da alma agora, pois é essa a missão das histórias.” (p. 41 e 42. cap.1).
• “Na maioria das vezes, contamos histórias quando somos convocados por elas, não o contrário.” (p. 567 – Posfácio – ESTÉS)



O SEGUNDO ÂNGULO: A PALAVRA TECIDA. (p. 17 – 51)
• Walter Ong “’Texto’, cuja raiz significa ‘tecer’, é, em termos absolutos, mais compatível com a enunciação oral (...). O discurso oral tem sido geralmente considerado em ambientes orais como tecer ou alinhavar.”

• Amadou Hampâté Ba “Nas sociedades de tradição oral, o discurso está estreitamente relacionado ao ofício do tecelão (...) Nos ofícios artesanais tradicionais, os gestos são considerados linguagem que reproduz, no simbolismo que lhe é próprio, o mistério da criação primordial ligada ao poder da Palavra: ‘O ferreiro forja a palavra, o tecelão a tece, o sapateiro a alisa, curtindo-a.’”


O TEXTO COMO PRODUÇÃO HUMANA
“O texto enunciativo do contador de histórias é o conto, mas o conto no texto do contador de histórias é apenas um dos fios da sua tecelagem.” (p.18)

Amadou Hampâté Bâ: “O conto de tradição oral pode ser percebido em vários níveis: a) puramente recreativo _ divertir e distrair crianças e adultos _ iniciação às regras morais, sociais e tradicionais da sociedade; b) suporte de ensinamento; c) iniciático _ ilustra as atitudes a imitar ou a rejeitar, as armadilhas a discernir e as etapas a vencer.” (p.18/19)

Pierre N’Dak: “Nos contos, a dupla função de educar e divertir é indissociável. Se fizermos do conto africano uma simples diversão, ele não é conto; se fizermos dele um curso de moral ou de filosofia, nós o desfiguramos da mesma forma. O conto é ao mesmo tempo fútil, útil e instrutivo.” (p.19)

O primeiro nível (puramente recreativo)
Pierre N’Dak “O conto é uma brincadeira, mas uma brincadeira organizada, uma brincadeira oral que deve interessar e divertir antes de instruir e formar”. (p.20)

Jean-Paul Eschlimenn “Aponta a primeira característica do conto, que é a de criar um espaço “fora”, onde a telescopagem do passado e do presente e a igualdade fundamental dos participantes tornam-se possíveis. (...) É a área onde se dá a brincadeira, o lúdico, contrastada com a realidade psíquica interna, ou pessoal, e com o mundo real em que o indivíduo vive, que pode ser objetivamente percebido. [...]
O espaço do conto é um espaço potencial na medida em que ele aconchega, quebra barreiras, institui as igualdades; é um espaço de confiança e de afeto.” (p.20/21)

“As simples fórmulas introdutórias: “Era uma vez”, “Há muito tempo” (...) que abrem os contos já são suficientes para nos transportar a esse lugar “fora”, esse espaço potencial de criação”. (p.22)

“O mundo para o qual se evade, por meio da palavra do conto, é um mundo fantástico, de maravilhas e impressões, que sutilmente nos remete ao nosso próprio ser, com tudo que isso possa significar.” (p.23)
George Jean _ Pour une pédagogie de l’imaginaire “O termo imaginação designa grosseiramente a faculdade pela qual o homem é capaz de reproduzir _ em si mesmo ou projetando fora de si _ as imagens armazenadas em sua memória. [...] O imaginário seria, então, o termo que designa os domínios, os territórios da imaginação (...)”(p.24/25)

(...) sobre a gênese da inteligência infantil Piaget mostrou que a capacidade de representação, que segundo ele precederia a linguagem verbal, é condição necessária, embora não suficiente, para que as faculdades mentais se desenvolvam.
A consciência que temos dos objetos ausentes à nossa percepção atual é uma consciência que nos permite tomar distância da realidade concreta, tangível, histórica na qual estamos inseridos. (p.25)

Eliana Stort (p.26/30) _ relaciona seis funções da imaginação:
1. Função objetivadora e libertadora. [...] o conto permite o controle da angústia, porque ele nomeia o inominável, permite à criança não mais ficar “à mercê”.(...) Não estando mais à mercê da angústia, a criança pode nomeá-la, identificá-la e sobretudo exteriorizá-la.”Louis Venet

2. Função comunicativa, de autoconhecimento e de conhecimento do mundo.

3. Função crítica: Marc Lindenfeld – efeito terapêutico - (p.27)

4. Função de apoio ao desenvolvimento racional. “Sem imaginação não há desenvolvimento possível dos indivíduos. Imaginação não é apenas devaneio, sonho, invenção do nunca visto; ela intervém nos processos os psíquicos e corporais e antes de tudo na linguagem” (George Jean)

5. Função motivadora. “O conto responde a essa dupla aspiração. Ele explica os mistérios do universo e, ao mesmo tempo, corrige com sua varinha de condão uma realidade imperfeita, injusta. Porque a esperança é sempre o milagre, o maravilhoso (...). É criando um mundo fantástico que o conto se revela próximo da realidade.” (Luda Schnitzer)

6. Função criadora – Christian Viallon “o conto, ao nos falar de situações nas quais podemos nos reconhecer, ajuda-nos a recriar nossa própria história. (...) o universal do conto, em relação com o particular do indivíduo, favorece a função criadora, possibilitando a transformação.”


Último tópico _ Hampâté Bâ: Aprendizagem da língua:

Suzy Platiel (linguista) “O conto pode representar um papel importante na aprendizagem e no domínio da linguagem, que leva à construção e à formação da identidade da criança. Nesse sentido, três pontos devem ser ressaltados: a) ativação dos mecanismos de simbolização que sustentam a utilização das palavras e o funcionamento da linguagem; b) construção da relação espaço/tempo; c) domínio da linguagem e desenvolvimento das estruturas discursivas.” (p.31/32)

O segundo nível (suporte de ensinamento para a iniciação às regras morais, sociais e tradicionais da sociedade) (último parágrafo p. 39)
Amadou Hampâté Bâ “Na África, na falta dos livros, o ensinamento se encontra nos contos, nas máximas, nas lendas. (...) Para nós, tudo é escola...nada é simplesmente recreativo (...) Quer seja pelos contos, pelos cantos, pelas palavras, nada, na África, é realmente uma simples distração. (...) A tradição oral é a grande escola da vida, ela cobre e concerne a todos os seus aspectos.” (p.40)


Terceiro nível (iniciático) (p.41)
Os etnólogos distinguem três tipos de iniciação: a tribal, a religiosa e a mágica.
a) A tribal assegura a passagem da puberdade ao estado adulto; é uma iniciação profana.
b) A religiosa assegura a passagem do profano ao sagrado, permitindo integrar o indivíduo ao sagrado.
c) A iniciação mágica ou xamânica exige o abandono da condição humana profana para ascender à posse de valores sobrenaturais. (p.42)

Que relação pode haver entre a iniciação daquela sociedade e as buscas de autoconhecimento na sociedade contemporânea, e como o conto responde a anseios nesse sentido?
A iniciação está relacionada ao “sentido da vida”, que por sua vez associa-se à transcendência. (p.42)

Mircea Eliade “(...) o homem profano descende do homo religiosus e não pode anular sua própria história [...] a crise existencial é ‘religiosa’ [não no sentido institucional, mas no sentido de re-ligare], visto que, aos níveis arcaicos de cultura, o ser confunde-se com o sagrado. (...) é a experiência do sagrado que funda o mundo (...)”(p.44/45)

“(...) graças aos símbolos, o homem sai de sua situação particular e se abre para o geral e o universal. Os símbolos despertam a experiência individual e transmutam-na em ato espiritual, em compreensão metafísica do Mundo.” (p.46/47)

Catherine Zarcate “Eu diria que, hoje, o conto substitui Deus. Nesse desejo de uma espiritualidade que sinto atualmente, o conto é o último passo profano antes da palavra sagrada. É uma palavra sobre o ser, num mundo do ter. É uma palavra viva. (...) As pessoas buscam isso, e buscam igualmente o ensinamento que há nos contos.” (p.46)

Jung “(...) o inconsciente pessoal recolhe tudo que recalcamos e o que ainda não percebemos, do nascimento à idade atual. São os medos, os desejos e outras tendências de nossa psique, incompatíveis com nosso eu. Os materiais contidos no inconsciente pessoal têm por característica o fato de poderem vir a ser conscientes. O inconsciente coletivo é formado pelo conjunto dos instintos e seus correlativos, as ‘imagens primordiais’ que ele chamou de ‘arquétipos’”. [...] no nível do inconsciente coletivo, mitologia e psicologia são sinônimos e que a sentença do templo de Delfos (‘Conheça-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e seus Deuses’) nos convida a tomar consciência do inconsciente coletivo e de seus arquétipos a fim de nos realizarmos.” (p.48)
“Se, por um lado, a teoria do inconsciente coletivo liga o homem profano ao seu ancestral religioso, por outro lado, a psicanálise, apesar de todo o ceticismo de seu criador, que reduziu radicalmente os fenômenos religiosos a fenômenos psíquicos, mantém ainda o padrão iniciático, próprio das sociedades tradicionais.” (função terapêutica) (p.49)

Hampâté Bâ: “Na dimensão espiritual, o conto tem suas correspondências com o nosso próprio mundo interior. O mundo de significações ocultas, por trás das aparências das coisas, o mundo dos símbolos em que tudo é significante, em que tudo fala para quem sabe escutar.” (p.50)

“(...) como um organismo dinâmico, a ‘palavra do contador’ é viva e mutante; ela pulsa, respira e escorrega quando se tenta prendê-la, mas pode ser muito generosa com aqueles que sabem respeitá-la em suas particularidades.” (p.51)

“Contar histórias é um ato de troca, de compartilhamento, de deixar marcas e criar a ilusão de eternidade”. (Albuquerque)



BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ALBUQUERQUE, Maria Clara Cavalcanti de. O Ato de Contar. http://www.leiabrasil.org.br/textos/
BRENMAN, Ilan e VIVLELA, Fernando. Contador de Histórias de Bolso – África. São Paulo: Moderna, 2008.
COELHO, Betty. Contar Histórias uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 2006.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LEAL, José Carlos. A natureza do conto popular. Rio de Janeiro: Conquista, 1985.
MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.
TAHAN, Malba. A arte de ler e contar histórias. Rio de Janeiro: Conquista, 1961.
 
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