sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

VÍDEO ENCERRAMENTO AULAS SOBRE LEITURA EM DEZEMBRO DE 2009




Uma amostra de nossa lembrança para a mestra Maria Teresa. O arquivo completo está no PEN DRIVE que entregarei ainda este mês.

domingo, 15 de novembro de 2009

A PALAVRA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA
DISICPLINA: TEORIA E PRÁTICA DE LEITURA
PROFESSORA: MARIA TERESA CONÇALVES PEREIRA
ALUNA (ouvinte): HELENA MESQUITA DIAS MARQUES



Os baobás muito velhos, assim como as histórias
na mente de um contador, não morrem nunca.
(ditado africano)


De onde vêm as histórias?
De onde e desde quando, vem este desejo do homem de contar e ouvir histórias?
Quem se encarrega em não deixá-las morrer?

PRIMEIROS CONTADORES PROFISSIONAIS:
Na Europa Central: bardos (cronistas – recitavam genealogias, acompanhados de instrumentos musicais e cantadores de louvores, que cantavam os feitos de seus líderes).
Na África: os griots ou akpalôs (contavam histórias das tribos) e os arokins (eram encarregados de relatar fatos heróicos).
LENDA AFRICANA: Kwaku Ananse (a aranha ou o Homem Aranha) - desejava possuir as histórias de Nyankonpon (o deus do céu, o todo-poderoso) para dá-las a seu povo.
LENDA ÁRABE: Sherazade - usa seu dom de contadora para salvar a própria pele.

Mas será que só pode ser considerada uma história, aquilo que lemos em um livro ou ouvimos de um contador oficial? Será que a novela das oito não reproduz o comportamento de Sherazade, que vai aos poucos enredando, enfeitiçando dia após dia?

A linhagem dos contadores vem sendo acrescida através dos séculos até os nossos dias, passando pelos menestréis, trovadores, cordelistas, locutores de rádio e televisão, pastores, padres, apresentadores de programas de auditório, sempre encontrando quem os escutasse.

MATOS, Gislayne Avelar. A Palavra do Contador de Histórias.São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.203.

RESUMO
Neste livro, a autora, Gislayne A. Matos, revela-nos o surpreendente fenômeno atual do ressurgimento dos contadores de histórias e a dimensão educativa da palavra do contador de histórias na contemporaneidade.
Num mundo grafocêntrico em que vivemos, causa, no mínimo, estranheza o retorno da narrativa oral e a volta da figura do contador, peculiar a culturas anteriores à escrita ou restrita a grupos rurais.
A autora busca em obras de antropólogos, historiadores, psicanalistas e estudiosos das tradições orais os pressupostos teóricos da narrativa oral e seus contadores, tecendo com maestria as teorias e os dados empíricos.

• POR QUE O SEU INTERESSE PELOS CONTADORES DE HISTÓRIAS? – Gislayne é herdeira de seu avô na arte de contar histórias. Mestra em educação, terapeuta sistêmica e especialista em arte-terapia e arte-educação, coordena o projeto Convivendo com Arte, para a formação de novos contadores e a pesquisa de contos da tradição oral e suas diversas funções. É co-autora, com a africana Inno Sorsy, do livro O ofício do contador de histórias.

• A PALAVRA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS
Interlocução: Amadou Hampâté Bâ _ “filho legítimo da tradição oral, um diplomado da Grande Universidade da Palavra ensinada à sombra dos baobás” é eleito o principal interlocutor na apresentação da pesquisa de Gislayne A. Matos.

• Para definir a imagem do contador de histórias, Gislayne apóia-se nos ensaios “O narrador” e “Experiências e Pobreza”, de Walter Benjamin.

• O repertório – O Conto de Fadas.
 Walter Benjamin - “O conto de fadas dá-nos notícia dos ritos mais antigos que a humanidade instituiu para espantar o pesadelo que o mito depositara no seu peito. Mostra-nos, na figura do bobo, como a humanidade se faz de boba diante do mito; mostra-nos na figura do irmão mais moço como aumentam suas chances com a distância em relação ao tempo mítico primitivo; mostra-nos na figura daquele que parte aprender o temor que as coisas de que temos medo são transparentes; mostra-nos na figura do inteligente que as perguntas que o mito faz são simplórias, a pergunta da esfinge; mostra-nos na figura dos animais a criança do conto de fadas, que a natureza não está obrigada apenas em relação ao mito, mas prefere reunir-se em torno do homem. O mais aconselhável _ assim o conto de fadas ensinou há tempos, à humanidade, e ainda hoje ensina às crianças _ é enfrentar os poderes do mundo mítico com astúcia e superioridade”. (p.XXVI 3&)

 Amadou Hampâté Bâ - “Os mitos, contos, lendas (...) frequentemente constituem para os sábios dos tempos antigos um meio de transmitir, ao longo dos séculos, de uma maneira mais ou menos velada, pela linguagem de imagens, os conhecimentos que, recebidos desde a infância, ficarão gravados na memória profunda do indivíduo, para ressurgirem, talvez, no momento apropriado e iluminado por um novo sentido (...). Eles são a mensagem de ontem, destinada ao amanhã, transmitidas no hoje.” (4& p. XXVI a XXVII).


• A DIMENSÃO EDUCATIVA DA PALAVRA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS NA CONTEMPORANEIDADE

 Walter Ong (sacerdote jesuíta - historiador e filósofo) “[...] o homem contemporâneo, sobretudo o urbano, dá sinais de necessitar de um relato não-mediado, em que a presença do outro ao ‘alcance das mãos’, um outro que ‘se dirija a mim, que me olhe, me emocione’, torna-se essencial”. “O sentimento de unidade que o contador é capaz de propiciar, por meio de sua palavra, talvez esteja funcionando como uma das saídas possíveis desse túnel de individualismo, de isolamento, de indiferença pelo outro e de intolerância com a alteridade próprios da contemporaneidade, que parece minar o reconhecimento do que há de humano numa ‘comunidade’ de humanos: já não nos reconhecemos e entretanto...somos tão semelhantes.” (1º / 2º & p. XXXII)

 Áreas de estudo: na Literatura (importante coleta de contos); antropologia e etnologia (interesse pelos aspectos ligados às culturas orais, nas quais os contos têm função de coesão social); psicologia (busca as possibilidades terapêuticas dos contos). Nas áreas das ciências sociais e da educação, o tema ainda é pouco explorado.


CAPÍTULO I – A PALAVRA POÉTICA DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS.
O capítulo trata da “palavra” do contador de histórias.
“Os contadores de histórias são guardiões de tesouros feitos de palavras, que ensinam a compreender o mundo e a si mesmos. Eles semeiam sonhos e esperanças. São carinhosamente chamados de ‘gente das maravilhas’ pelos árabes”. (1º& p. 1)

Quanto à linguagem: O texto é articulado por uma polifonia de vozes; contudo, dois teóricos (antropologistas religiosos) Ernest Cassirer e Mircea Eliade e o tradicionalista Amadou Hampâté Bâ representam o tripé do capítulo.

O mito
A antropologia religiosa, segundo Fernando Schwarz, postula que o mito é uma expressão existencial do homem, cujo pensamento simbólico torna possível sua livre circulação por todos os níveis do real. O mito faz com que o homem “não se sinta mais fragmento impermeável, mas um cosmo vivo reunido a todos os outros cosmos vivos que o rodeiam”.
• Para Cassirer, o homem não é mais considerado simplesmente um ser físico e emocional. Graças à sua imaginação, ele é capaz de criar símbolos, que são “pontes” entre o céu e a terra. Ele é reconhecido como homo simbolicus.
• Já Mircea Eliade cunha o conceito de homo religiosus: aquele que pode reconhecer em si mesmo a irrupção de uma visão transcendente e globalizante. Seus estudos colocam em evidência os invariantes do homem, a saber: o Sagrado, os Mitos e os Símbolos, estabelecendo vínculos de compreensão entre os homens de culturas e de épocas diferentes.

• POR QUE A VOLTA DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS?
“Se há épocas em que os ouvidos e os corações se fecham para o mágico e o poético, outras, entretanto, encontram o home pronto a se encantar novamente. Talvez estejamos vivendo mais uma dessas épocas, o que explicaria o retorno dessa ‘gente das maravilhas’”. (p. 1/ 2)

• QUANDO SE DEU? – na década de 70. Em fevereiro de 1989, colóquio internacional no Musée National dês Arts et Traditions Populaires, de Paris. (350 participantes representaram catorze países).
No Brasil (1992), Primeiro Festival de Contadores de Histórias realizou-se em Belo Horizonte.

As ideias que os contadores de histórias fazem de sua “palavra”.
Em confronto com ideias de teóricos ou tradicionalistas a “palavra” passa a ser observada a partir de três ângulos
a) Sua natureza: descende da Palavra (sentido divino).
b) Sua especificidade como texto (sentido bakitiniano do termo – produção humana).
c) A palavra que cria: poética dos contadores de histórias – performance própria da poética oral. (cap.II)


O PRIMEIRO ÂNGULO: A PALAVRA REVELADA. (mítica, sagrada). (p. 5 – 16)
“Em sua grande maioria, os contadores de histórias, ao definirem a palavra dos contos, ressaltam nela uma natureza espiritual, sagrada, carregada de poder (...)” (p. 7)

NA BÍBLIA:
(Mateus 8:6-13) Jesus viu a fé nas palavras do centurião e apenas concordou com elas. Há poder na palavra e nós precisamos aprender a usá-la para curar e libertar as pessoas.

NA LITERATURA:
(Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV) – Bobo: Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender.
Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo; portanto, seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.
NA PSICANÁLISE:
Clarissa P. ESTÉS: “Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem. Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica para trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso(...)”(Posfácio p. 567)

A natureza da Palavra (p. 6 – 14)
• Ernest Cassirer (Linguagem e mito): “ Nos relatos da criação de quase todas as grandes religiões culturais, a Palavra aparece sempre unida ao mais alto Deus Criador, quer se apresente como instrumento utilizado por ele, quer diretamente como fundamento primário de onde ele próprio provém, assim como toda existência e toda ordem de existência. O pensamento e sua expressão verbal costumam ser aí concebidos como uma só coisa, pois o coração que pensa e a língua que fala se pertencem necessariamente.” (p. 7)

• Amadou Hampâté Bâ: “Além da função da memória, que é mais desenvolvida, o importante nas sociedades orais é a força que tem a palavra e o laço que a une ao homem. Onde não há escrita, o homem está ligado à sua palavra, e sua palavra testemunha quem ele é.” (p. 9)
Nas sociedades de tradição oral, “um conto é a mensagem de ontem, destinada ao amanhã, transmitida no hoje.”(p.13)

Os cuidados com a “palavra” (p.14 - 16)
“A palavra dos contos tem se mantido viva, pois a sua estrutura ou o esqueleto da história como um núcleo cujo conteúdo arcaico e arquetípico é intocável e deve ser resguardado”.

• Roberto Carlos Ramos (p.16) “A história em si, ela tem uma força. Algumas histórias existem há trezentos, quatrocentos anos, porque têm uma força que as mantém vivas. Elas não precisam de nenhuma tecnologia para serem passadas. Mantiveram-se vivas por trezentos, quatrocentos anos, pela força das pessoas e das verdades que elas encerram. A história, por si só, é viva.”

• Clarissa Pinkola Estés: “Antigos anatomistas falavam de o nervo auditivo dividi-se em três ou mais caminhos nas profundezas do cérebro. Eles concluíram que o ouvido devia, portanto , funcionar em três níveis diferentes. Um deles seria o das conversas rotineiras da vida. Um segundo seria dedicado à aprendizagem e à arte. E o terceiro existiria para que a própria alma pudesse ouvir orientações e adquirir conhecimentos enquanto estivesse aqui na terra. Ouçam, portanto, com a escuta da alma agora, pois é essa a missão das histórias.” (p. 41 e 42. cap.1).
• “Na maioria das vezes, contamos histórias quando somos convocados por elas, não o contrário.” (p. 567 – Posfácio – ESTÉS)



O SEGUNDO ÂNGULO: A PALAVRA TECIDA. (p. 17 – 51)
• Walter Ong “’Texto’, cuja raiz significa ‘tecer’, é, em termos absolutos, mais compatível com a enunciação oral (...). O discurso oral tem sido geralmente considerado em ambientes orais como tecer ou alinhavar.”

• Amadou Hampâté Ba “Nas sociedades de tradição oral, o discurso está estreitamente relacionado ao ofício do tecelão (...) Nos ofícios artesanais tradicionais, os gestos são considerados linguagem que reproduz, no simbolismo que lhe é próprio, o mistério da criação primordial ligada ao poder da Palavra: ‘O ferreiro forja a palavra, o tecelão a tece, o sapateiro a alisa, curtindo-a.’”


O TEXTO COMO PRODUÇÃO HUMANA
“O texto enunciativo do contador de histórias é o conto, mas o conto no texto do contador de histórias é apenas um dos fios da sua tecelagem.” (p.18)

Amadou Hampâté Bâ: “O conto de tradição oral pode ser percebido em vários níveis: a) puramente recreativo _ divertir e distrair crianças e adultos _ iniciação às regras morais, sociais e tradicionais da sociedade; b) suporte de ensinamento; c) iniciático _ ilustra as atitudes a imitar ou a rejeitar, as armadilhas a discernir e as etapas a vencer.” (p.18/19)

Pierre N’Dak: “Nos contos, a dupla função de educar e divertir é indissociável. Se fizermos do conto africano uma simples diversão, ele não é conto; se fizermos dele um curso de moral ou de filosofia, nós o desfiguramos da mesma forma. O conto é ao mesmo tempo fútil, útil e instrutivo.” (p.19)

O primeiro nível (puramente recreativo)
Pierre N’Dak “O conto é uma brincadeira, mas uma brincadeira organizada, uma brincadeira oral que deve interessar e divertir antes de instruir e formar”. (p.20)

Jean-Paul Eschlimenn “Aponta a primeira característica do conto, que é a de criar um espaço “fora”, onde a telescopagem do passado e do presente e a igualdade fundamental dos participantes tornam-se possíveis. (...) É a área onde se dá a brincadeira, o lúdico, contrastada com a realidade psíquica interna, ou pessoal, e com o mundo real em que o indivíduo vive, que pode ser objetivamente percebido. [...]
O espaço do conto é um espaço potencial na medida em que ele aconchega, quebra barreiras, institui as igualdades; é um espaço de confiança e de afeto.” (p.20/21)

“As simples fórmulas introdutórias: “Era uma vez”, “Há muito tempo” (...) que abrem os contos já são suficientes para nos transportar a esse lugar “fora”, esse espaço potencial de criação”. (p.22)

“O mundo para o qual se evade, por meio da palavra do conto, é um mundo fantástico, de maravilhas e impressões, que sutilmente nos remete ao nosso próprio ser, com tudo que isso possa significar.” (p.23)
George Jean _ Pour une pédagogie de l’imaginaire “O termo imaginação designa grosseiramente a faculdade pela qual o homem é capaz de reproduzir _ em si mesmo ou projetando fora de si _ as imagens armazenadas em sua memória. [...] O imaginário seria, então, o termo que designa os domínios, os territórios da imaginação (...)”(p.24/25)

(...) sobre a gênese da inteligência infantil Piaget mostrou que a capacidade de representação, que segundo ele precederia a linguagem verbal, é condição necessária, embora não suficiente, para que as faculdades mentais se desenvolvam.
A consciência que temos dos objetos ausentes à nossa percepção atual é uma consciência que nos permite tomar distância da realidade concreta, tangível, histórica na qual estamos inseridos. (p.25)

Eliana Stort (p.26/30) _ relaciona seis funções da imaginação:
1. Função objetivadora e libertadora. [...] o conto permite o controle da angústia, porque ele nomeia o inominável, permite à criança não mais ficar “à mercê”.(...) Não estando mais à mercê da angústia, a criança pode nomeá-la, identificá-la e sobretudo exteriorizá-la.”Louis Venet

2. Função comunicativa, de autoconhecimento e de conhecimento do mundo.

3. Função crítica: Marc Lindenfeld – efeito terapêutico - (p.27)

4. Função de apoio ao desenvolvimento racional. “Sem imaginação não há desenvolvimento possível dos indivíduos. Imaginação não é apenas devaneio, sonho, invenção do nunca visto; ela intervém nos processos os psíquicos e corporais e antes de tudo na linguagem” (George Jean)

5. Função motivadora. “O conto responde a essa dupla aspiração. Ele explica os mistérios do universo e, ao mesmo tempo, corrige com sua varinha de condão uma realidade imperfeita, injusta. Porque a esperança é sempre o milagre, o maravilhoso (...). É criando um mundo fantástico que o conto se revela próximo da realidade.” (Luda Schnitzer)

6. Função criadora – Christian Viallon “o conto, ao nos falar de situações nas quais podemos nos reconhecer, ajuda-nos a recriar nossa própria história. (...) o universal do conto, em relação com o particular do indivíduo, favorece a função criadora, possibilitando a transformação.”


Último tópico _ Hampâté Bâ: Aprendizagem da língua:

Suzy Platiel (linguista) “O conto pode representar um papel importante na aprendizagem e no domínio da linguagem, que leva à construção e à formação da identidade da criança. Nesse sentido, três pontos devem ser ressaltados: a) ativação dos mecanismos de simbolização que sustentam a utilização das palavras e o funcionamento da linguagem; b) construção da relação espaço/tempo; c) domínio da linguagem e desenvolvimento das estruturas discursivas.” (p.31/32)

O segundo nível (suporte de ensinamento para a iniciação às regras morais, sociais e tradicionais da sociedade) (último parágrafo p. 39)
Amadou Hampâté Bâ “Na África, na falta dos livros, o ensinamento se encontra nos contos, nas máximas, nas lendas. (...) Para nós, tudo é escola...nada é simplesmente recreativo (...) Quer seja pelos contos, pelos cantos, pelas palavras, nada, na África, é realmente uma simples distração. (...) A tradição oral é a grande escola da vida, ela cobre e concerne a todos os seus aspectos.” (p.40)


Terceiro nível (iniciático) (p.41)
Os etnólogos distinguem três tipos de iniciação: a tribal, a religiosa e a mágica.
a) A tribal assegura a passagem da puberdade ao estado adulto; é uma iniciação profana.
b) A religiosa assegura a passagem do profano ao sagrado, permitindo integrar o indivíduo ao sagrado.
c) A iniciação mágica ou xamânica exige o abandono da condição humana profana para ascender à posse de valores sobrenaturais. (p.42)

Que relação pode haver entre a iniciação daquela sociedade e as buscas de autoconhecimento na sociedade contemporânea, e como o conto responde a anseios nesse sentido?
A iniciação está relacionada ao “sentido da vida”, que por sua vez associa-se à transcendência. (p.42)

Mircea Eliade “(...) o homem profano descende do homo religiosus e não pode anular sua própria história [...] a crise existencial é ‘religiosa’ [não no sentido institucional, mas no sentido de re-ligare], visto que, aos níveis arcaicos de cultura, o ser confunde-se com o sagrado. (...) é a experiência do sagrado que funda o mundo (...)”(p.44/45)

“(...) graças aos símbolos, o homem sai de sua situação particular e se abre para o geral e o universal. Os símbolos despertam a experiência individual e transmutam-na em ato espiritual, em compreensão metafísica do Mundo.” (p.46/47)

Catherine Zarcate “Eu diria que, hoje, o conto substitui Deus. Nesse desejo de uma espiritualidade que sinto atualmente, o conto é o último passo profano antes da palavra sagrada. É uma palavra sobre o ser, num mundo do ter. É uma palavra viva. (...) As pessoas buscam isso, e buscam igualmente o ensinamento que há nos contos.” (p.46)

Jung “(...) o inconsciente pessoal recolhe tudo que recalcamos e o que ainda não percebemos, do nascimento à idade atual. São os medos, os desejos e outras tendências de nossa psique, incompatíveis com nosso eu. Os materiais contidos no inconsciente pessoal têm por característica o fato de poderem vir a ser conscientes. O inconsciente coletivo é formado pelo conjunto dos instintos e seus correlativos, as ‘imagens primordiais’ que ele chamou de ‘arquétipos’”. [...] no nível do inconsciente coletivo, mitologia e psicologia são sinônimos e que a sentença do templo de Delfos (‘Conheça-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e seus Deuses’) nos convida a tomar consciência do inconsciente coletivo e de seus arquétipos a fim de nos realizarmos.” (p.48)
“Se, por um lado, a teoria do inconsciente coletivo liga o homem profano ao seu ancestral religioso, por outro lado, a psicanálise, apesar de todo o ceticismo de seu criador, que reduziu radicalmente os fenômenos religiosos a fenômenos psíquicos, mantém ainda o padrão iniciático, próprio das sociedades tradicionais.” (função terapêutica) (p.49)

Hampâté Bâ: “Na dimensão espiritual, o conto tem suas correspondências com o nosso próprio mundo interior. O mundo de significações ocultas, por trás das aparências das coisas, o mundo dos símbolos em que tudo é significante, em que tudo fala para quem sabe escutar.” (p.50)

“(...) como um organismo dinâmico, a ‘palavra do contador’ é viva e mutante; ela pulsa, respira e escorrega quando se tenta prendê-la, mas pode ser muito generosa com aqueles que sabem respeitá-la em suas particularidades.” (p.51)

“Contar histórias é um ato de troca, de compartilhamento, de deixar marcas e criar a ilusão de eternidade”. (Albuquerque)



BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ALBUQUERQUE, Maria Clara Cavalcanti de. O Ato de Contar. http://www.leiabrasil.org.br/textos/
BRENMAN, Ilan e VIVLELA, Fernando. Contador de Histórias de Bolso – África. São Paulo: Moderna, 2008.
COELHO, Betty. Contar Histórias uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 2006.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LEAL, José Carlos. A natureza do conto popular. Rio de Janeiro: Conquista, 1985.
MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.
TAHAN, Malba. A arte de ler e contar histórias. Rio de Janeiro: Conquista, 1961.

sábado, 14 de novembro de 2009

CURSO ON LINE : FAZER A PONTE

Maiores informações:
http://www.aquifolium.com.br/educacional/ponte/#insc

terça-feira, 20 de outubro de 2009

LEITURA, APRENDIZAGEM E TECNOLOGIA

Esse texto me fez lembrar das aulas da nossa professora Maria Teresa... interessante reflexão sobre leitura, aprendizagem e tecnologia.

DE VOLTA PARA O FUTURO
GILBERTO DIMENSTEIN - FOLHA DE S. PAULO
18-Out-2009

A escola não terá função se o professor repetir conteúdos. O bom professor será um gerenciador de curiosidades A POUCAS quadras da minha casa sobrevive, numa livraria, uma espécie em extinção: uma vendedora de livros que adora ler livros -e falar sobre eles. Um dos meus prazeres do sábado é ver Cida Saldanha, com brilho nos olhos, dando dicas, na Livraria da Vila, sobre os últimos lançamentos, especialmente romances, muitos deles nem saíram nas resenhas dos jornais. Desconfio que seu interesse seja menos o de vender um produto do que conversar sobre o encanto da literatura. É uma imagem nostálgica de uma São Paulo provinciana -mas, talvez, nessa espécie em extinção, esteja o futuro. Baseio minha aposta na enxurrada de notícias, publicadas nas últimas semanas, especialmente na semana passada. Pesquisa realizada em Frankfurt, onde ocorreu a maior feira literária do mundo, mostrou que a maioria dos envolvidos no negócio imagina que, em breve, muita gente vai preferir usar os recursos digitais, livrando-se do papel, graças a aparelhos como o Kindle. Isso significa que as livrarias vão desaparecer? Afinal, por que alguém precisaria sair de casa se, em segundos, os livros estarão numa tela, com um preço mais barato e facilidade de leitura próxima a do papel? Talvez saia se for encontrar tipos como Cida -não uma vendedora, mas uma consultora. Todo mundo sabe que existe um novo tipo de leitor surgindo, acostumado à tela do computador. Pesquisa do Ibope sobre os hábitos diante dos meios de comunicação mostra que 30% dos jovens preferem ter encontros virtuais, ou seja, a distância, do que presenciais. Quanto mais jovem, maior essa percentagem e a habilidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Não é um grupo que desenvolveu o prazer tátil e visual do papel. Já nasceu na era da banda larga. Os mais ricos nunca ouviram o barulho da espera de uma linha discada. Avançam os acordos da Google para a digitalização das obras e aumenta a corrida dos fabricantes para produzir livros eletrônicos mais leves e baratos. Editoras se prepararam para mesclar vídeos às palavras, criando o que se batizou de "vook" (vídeo + book). A banda larga vai ficar cada vez mais veloz e universal. Disseminam-se as lan houses pela periferia. Na semana passada, o governo de São Paulo lançou um plano para baratear o acesso veloz à internet, com redução de impostos; o governo federal já anunciou que pretende gastar R$ 1 bilhão para atingir o mesmo objetivo. A leitura mais detalhada da pesquisa do Ibope reforça o que o Datafolha já tinha detectado sobre os jovens -aliás, uma conclusão encontrada numa pesquisa feita pela MTV. Diante de tanta informação, cresce cada vez mais a confusão e, logo, a demanda por orientação para se saber o que é relevante. A escola não terá função se os professores apenas repetirem conteúdos, isso pela simples razão de que se pode encontrá-los em qualquer hora e em qualquer lugar, devidamente interativos. O bom professor será um gerenciador de curiosidades -e ele próprio terá de ser um curioso. Esse é o principal recado do Enem, o resto é detalhe. Ninguém lerá um jornal impresso se estiveram apenas reproduzidas as informações no dia anterior. Assim como já não se compra um CD porque se pode baixar a música pela internet. Em essência, o que se está demandando é mais qualificação da mão de obra, só isso. Tenho colecionado levantamentos feitos com jovens mostrando a dificuldade de se adaptarem aos empregos pela inabilidade em focar, aprofundar e sintetizar. Estudos de psicólogos de Harvard definem como uma das principais habilidades contemporâneas a capacidade de síntese o que, traduzindo, significa saber o que é relevante. A recuperação do prestígio de personagens como a nostálgica Cida, com seu jeito provinciano baseado no prazer do presencial, apenas informa que a era da comunicação está apressando a era da educação, em que o fato de aprender e ensinar ocorre em todos os lugares. PS - Por falar em leitura e diferentes formas de aprender, começa, nesta semana, uma experiência poética em São Paulo. Serão espalhados por trens e estações de metrô versos dos grandes poetas da língua portuguesa. Coloquei uma seleção dessas obras, algumas delas com áudio, no www.catracalivre.com.br. Na educação do futuro, a escola vai para a rua -e a rua vai para a escola. Nada melhor para desenvolver o poder de síntese do que a poesia.

domingo, 20 de setembro de 2009

Ler: necessidade do Mundo Contemporâneo

Temos analisado as estatísticas que apontam resultados da qualidade dos alunos de escolas públicas, sejam em esfera federal, presidida pelo MEC ou pelo governo estadual e municipal. Aqui, no Rio de Janeiro, a Prefeitura precedeu a uma avaliação e descobriu que temos mais de vinte e cinco mil analfabetos funcionais de segundo ao nono ano.

Isso aumenta a responsabilidade da necessidade de reflexão sobre o que estamos fazendo do ensino da leitura e escrita em nossas salas de aula. Essa situação exige dos professores que pesquisem, mudem sua prática pedagógica, experimentem novas metodologias, apropriem-se das novas tecnologias educacionais em proveito de um fazer pedagógico mais didático, onde a sala de aula possa ter um trabalho de contexto mais significativo e que possa ser instaurada uma maior interatividade entre alunos, professor e conteúdos.
Estamos enfrentando um grande desafio para preparar novos leitores. As crianças e jovens ainda acreditam, na leitura como fonte de conseguirem novas informações. Não podemos sufocar, no nascedouro da leitura, nosso pequeno leitor com regras pré-estabelecidas que conferem à leitura um aspecto de chatice que as afasta dessa prática.
Seja a leitura para obter informação, para construir conhecimento ou entretenimento, há algo em comum em todos esses objetivos: ter um trabalho anterior em relação à semântica, trabalhar vocabulário, enriquecendo as frases com mais palavras, distinguir os diversos significados que uma palavra pode ter de acordo com o contexto frasal. A compreensão é o que nos interessa. Sabemos das dificuldades que têm os alunos do Ensino Fundamental para ler e entender enunciados de questões em exercícios e avaliações. É necessário que a compreensão seja estabelecida a partir do ato de ler como diálogo que se constrói “na inter-relação entre leitor-texto-autor-contexto de produção e de leitura”.

Além dos olhos, que apenas trazem a informação visual, devemos colocar nossa atenção na “informação não-visual”, que depende de conhecimentos prévios sobre o assunto lido.

“(...) É o cérebro que determina ‘o quê’ e ‘como’ vemos, levando em consideração o conhecimento que o leitor já possui sobre o assunto; ou seja, na leitura deve-se levar em consideração o texto impresso (informação visual) e o que está por trás dos olhos do leitor, o que está por trás do texto – o conhecimento que leitor já possui sobre o assunto (informação não-visual).

Quando tentamos ler algo que não faz sentido, quando há ausência de informação sobre o assunto, quando há relutância para usar a informação visual e maus hábitos de leitura o cérebro é sobrecarregado de informação visual provocando a “visão túnel” e isso é um risco comprometedor na aprendizagem de leitura e consequentemente compromete a sua compreensão. (...)”

Precisamos pesquisar para adquirir conhecimentos que são básicos sobre a questão dos mecanismos que nos conferem ferramentas para a prática da leitura. Um desses conhecimentos importantes é saber que existem dois tipos principais de memória: a memória de curto prazo e a memória de longo prazo.

A memória de curto prazo é funcional, retém com brevidade as informações que estamos adquirindo na leitura, se não houver significação ou compreensão sobre tais informações serão esquecidas com rapidez, antes de se chegar ao final do texto, já não estarão mais ao alcance do leitor.

Já a memória de longo prazo é aquela que guarda todas as informações significativas não-visuais, ou seja, é a nossa leitura de mundo. Se adquirirmos novas informações que sejam significativas e coerentes com a visão de mundo estruturado que se possui, o cérebro irá organizar esses novos dados que passarão a integrar uma rede de conhecimentos, que será transformada à cada nova aquisição.

Para afirmarmos que temos compreensão do texto que lemos, temos que ler nos fazendo perguntas sobre o texto. Outra função importante da visão pessoal de mundo é a possibilidade de antecipar, prever eventos futuros; ou seja, criar expectativas sobre o que poderá acontecer em determinadas situações – isso graças à eficiência da teoria de mundo que funciona mesmo quando não temos consciência dela.

A possibilidade de antecipar o que poderá acontecer no desenrolar da leitura de um texto escrito, por exemplo, ocorre graças à previsão que é “a eliminação antecipada de alternativas improváveis”, funciona como uma espécie de adivinhação que ocorre dentro de um contexto provável e compatível com a teoria de mundo. Na leitura de um texto é fundamental a previsão, pois na medida em que lemos vamos criando expectativas sobre o que iremos ler em seguida. Se nossas previsões forem se confirmando, estamos compreendendo, de fato, o texto lido, ou seja, estamos atribuindo sentido à leitura. Isso nos leva a crer que fazer “previsão é fazer perguntas e compreensão é responder essas perguntas”.

Em outras palavras, leitura é fazer perguntas ao texto escrito. Quando lemos extraímos informações do texto de maneira seletiva. A leitura com compreensão fornece respostas às perguntas feitas pelo leitor. Diante de um texto tenho que saber que pergunta fazer para poder compreendê-lo e ter as respostas. As perguntas que fazemos na leitura estão quase sempre implícitas, não temos consciência dessas perguntas e nem de que as estamos fazendo; nem temos consciência de que estamos obtendo as respostas.

Cada vez mais a sociedade, principalmente o mercado de trabalho aponta para a necessidade de um sujeito capaz de resolver problemas, se auto-informar, capaz de pesquisar soluções para seus trabalhos através das várias tecnologias que o mundo moderno oferece. A responsabilidade de formar esse sujeito é da escola. Se não estamos conseguindo nem ao menos alfabetizar nossas crianças, algo está muito errado. Talvez, quem sabe, a questão da insistência de se querer alfabetizar crianças por métodos arcaicos, repetitivos que não dão mais conta da curiosidade, da bagagem de conhecimento tecnológicos que uma criança de seis anos leva para a escola. Lá o que ela encontra, no ensino tradicional, é a negação de tudo o que ela conheceu em seus primeiros anos de vida ou uma escola que usa a tecnologia, mas de maneira inadequada.

Cabe ao professor procurar, através de pesquisa contínua, novas metodologias, aprofundar-se nas descobertas das novas teorias da aprendizagem, que, afinal, nem são tão novas assim. A sociedade respaldada pelas provas, concursos elaborados por uma elite insiste em submeter a população a uma idéia que vale mais a “decoreba”, a quantidade de informação acumulada em vez da qualidade da informação que selecionada pelo senso crítico de cada um poderá alicerçar a construção do conhecimento individual.

A leitura como fonte de prazer e entretenimento pode ser a porta aberta para alcançar o interesse infantil sobre a leitura significativa. Qual a criança que não gosta de revistinhas de quadrinhos? Por que os quadrinhos foram tão desprezados como texto de leitura? Começar por textos pequenos e sem grande valor literário, mas com grande interesse para as crianças pode ser o início de uma relação duradoura e prazerosa entre criança e leitura.

A criança, que é colocada em contato com a prática de ouvir história, lendas, fábulas, poesias e outros, estará se habilitando a compreender textos orais e ter idéia de como se constrói o texto escrito. Uma construção não parte do nada, necessita de elementos para ser iniciada.

Como pessoas comprometidas com a formação de novos cidadãos, vamos colaborar das mais variadas formas para que todas as crianças tenham a chance de realizar seu grande sonho: entrar no mundo moderno equipadas com a maior, mas eficiente e espetacular ferramenta de aquisição de conhecimento: a leitura.
Somente incluindo todas as pessoas no mundo da leitura poderemos realmente afirmar que estamos vivendo a Sociedade da Informação.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A volta da gramatiquice

Nilson Lage *, Jornal do Brasil
FLORIANÓPOLIS - Parece que a iniciativa foi do Pasquale, ao responder à pergunta de um espectador, em programa na TV, em 2004. Que pena! Até simpatizo com ele (já o defendi, em outra oportunidade) por sua tentativa de encontrar um ponto de acordo viável entre o português de casaca e o português de sandálias de dedo. Mas dessa vez foi além das chinelas e quebrou a cara, com Rede Globo e tudo.
“Risco”, .palavra de etimologia nebulosa, tem vários sentidos. Na linguagem jurídica, é “perigo de perda”. A expressão “risco de vida”, nesta acepção, transitou da linguagem cartorária para os textos legais (figura em milhares de leis, decretos e portarias) e daí para o que duvidosamente se chamaria de “norma culta”.
Nada de novo. O mesmo aconteceu com uma infinidade de outras formas linguísticas.
Se as línguas naturais não fossem constituídas de expressões ambíguas, que admitem extensões, metonímias e metáforas, cada ente e cada relação entre entes teria uma denominação, formando um acervo enorme (isto é, tão grande quanto se queira) que, somado à árvore de acesso, exigiria muitos bilhões de neurônios a mais.
Ao tentar substituir “risco de vida”, propuseram “risco de morte”. É algo que, para bem dizer, não sobrevive. “Risco de morte” seria a ressurreição, já que a morte estaria em risco... de viver. Em “risco de morrer”, a palavra “risco” tem outro sentido, de “perigo”, até porque um verbo (“morrer”), sendo a designação de processo, não pode estar “em risco”.
O paradigma é o de casa em chamas>chamas da casa, montanha em erosão>erosão da montanha, filme em exibição>exibição do filme – em suma, ente em processo>processo do ente.
Outro caso é o de “vítima fatal”. A bem dizer, o adjetivo “fatal” exige núcleo nominal agente: disparo fatal, acidente fatal, armadilha fatal etc. No entanto, essa expressão aparece mais de 100 mil vezes na listagem do Google; pode-se, então, dizer que é de uso corrente.
Como seria possível descrevê-la? Trata-se de inversão tal que o núcleo nominal agente torna-se paciente da ação descrita pelo adjetivo; em outras palavras, o nome deixa de ser agente (o disparo) para ser paciente (a vítima) da fatalidade.
Transposições assim não são novidade. Quem lê Machado de Assis encontra com frequência a construção paciente - “aborrecer” - agente. Por exemplo,. “Marina aborrece a ausência de Mário”. Hoje, essa estrutura inacusativa inverteu-se. Assim, “a ausência de Mário aborrece Marina”.
Será que vale a pena impugnar uma construção usual por causa de tais detalhes? Não parece preocupação medíocre quando temos problemas muito sérios de aprendizagem e uso da língua? Exigências dessa ordem não representam desestímulo para quem pretende expressar-se por escrito? Não parece a gramatiquice chata dos sabichões que há um século andavam catando galicismos e discutindo se o certo é “ele me pode dizer”, “ele pode me dizer” ou “ele pode dizer-me”?
* Nilson Lage é jornalista e professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem bacharelado em Letras e ´é mestre em comunicação e doutor em linguística.
21:50 - 04/09/2009

"A ESTRELA SOBE": MAS A QUE PREÇO?

Obra-prima de Marques Rebelo ganha reedição pela José Olympio

Henrique Marques-Samyn*, Jornal do Brasil
RIO - Primeira das obras de Marques Rebelo reeditada pela José Olympio, A estrela sobe retorna às prateleiras 70 depois de sua publicação original. Nome literário de Edi Dias da Cruz – que adotou o pseudônimo para proteger a família após os ataques contra os modernistas na Semana de Arte Moderna – Marques Rebelo passou por um longo período de esquecimento, embora tenha sido um dos mais importantes autores da literatura brasileira de meados do século passado. Para ter uma ideia dessa notoriedade, basta ler o que Fernando Sabino escreveu em O tabuleiro de damas: “A passagem de Marques Rebelo por Belo Horizonte representou para mim verdadeiro acontecimento, como se lá tivesse descido um disco voador (inexistentes, até então)”. O esquecimento a que o escritor foi relegado talvez se deva à língua ferina que o levou a cultivar inúmeras inimizades. Em plena Academia Brasileira de Letras, em resposta ao discurso de posse de Marques Rebelo, Aurélio Buarque de Holanda referiu-se à “maledicência rebeliana”: “Homem sois de língua afiada”; Drummond, numa crônica, qualificou o escritor como um “diabo miudinho” (isso, contudo, talvez soasse como um elogio aos ouvidos de Rebelo, fiel torcedor do America).
Nascida na Saúde
Como observa o crítico Luís Bueno, A estrela sobe foi recebido logo de saída como a obra-prima daquele que era então considerado o maior contista brasileiro vivo, e teve reedições constantes. O romance narra a história de Leniza Máier, jovem nascida no bairro da Saúde, que sonha ser cantora de rádio. Embora pobre, filha de um relojoeiro descendente de alemães e de uma “mestiça disfarçada”, Leniza é ambiciosa; dotada de algum talento, tem atributos que mais podem ajudá-la a alcançar seus objetivos: grandes olhos castanhos, seios redondos que desafiam decotes, belas coxas morenas. A princípio, ela ainda acredita que pode vencer graças aos seus dotes musicais; contudo, num mundo em que os homens dão as cartas, é o corpo que aos poucos se torna sua chave para o sucesso. Quando finalmente o percebe, Leniza já está demasiado envolvida pelo glamour da “vida de artista” para que um recuo seja possível: mora na rua do Riachuelo, frequenta outras cantoras, recebe cartas de fãs, tem sua imagem estampada nos jornais. A essa altura, Leniza já nada tem de ingênua; sabe o que precisa fazer para manter-se no patamar – e não pode recusar-se a fazê-lo.
A estrela subiu, mas a que preço? Eis o questionamento que ocupa o centro da obra, perpassada do início ao fim por um forte discurso moralizante. Ainda criança, morando numa pensão, via nus os homens que lá se hospedavam; adolescente, deixava-se bolinar pelos namorados. Todo o resto da história seria apenas a concretização desse destino que já se anunciava para a pequena Leniza: uma caminhada rumo à “perdição”. É representativa uma das cenas finais do livro: Leniza delirante ao lado da mãe que, embora atenta, trata-a com frieza, consumida pelo desgosto. O homem que vem visitar a enferma é despachado pela mãe, que sequer o conhece: para ela, o mero fato de ser um homem faz dele um símbolo de todos aqueles que cruzaram com sua filha no retorto caminho. Leniza, a sobrevivente, tem afinal a chance de redescobrir a vida após o périplo pelos infernos.
Seria injustiça atribuir todo esse moralismo a Marques Rebelo. O que legitima a onipresença do narrador no romance – que preenche todos os espaços, matizando tudo com seus juízos, não raro interrompendo as falas dos personagens, que cedem espaço à narração indireta – é o fato de traduzir expectativas e valores de toda uma sociedade: mais do que sonhar com o sucesso, cabia a Leniza, enquanto mulher, o dever de zelar por sua própria honra. É significativo o contraste entre a promiscuidade com que ela se depara no meio profissional, onde escasseia a moralidade, e o acolhimento que encontra no ambiente doméstico – onde a mãe, mesmo desgostosa, permanece ao seu lado. Esta a mensagem nas entrelinhas: se Leniza tivesse ficado em casa, quem sabe arranjado um marido, nada daquilo teria acontecido.
Ao fim, movida pelas lembranças da primeira comunhão, Leniza cogita visitar uma igreja; contudo, recua diante das portas fechadas – e de que adiantaria lá entrar, se “um vento ímpio” levara-lhe as orações da memória? A Leniza Máier, a estrela cadente, resta brilhar na obscura senda que lhe reservou o destino – por ter nascido pobre; mas, sobretudo, por ter nascido mulher.
* Doutorando em literatura comparada e autor de Esparsa erótica, livro de poemas.
20:30 - 03/09/2009
GA_googleFillSlot("JB_Cultura_EsquerdaInf_336x280");
 
BlogBlogs.Com.Br